Há uma seta amarela pintada num muro de granito da Areosa que já apontou o norte a milhares de pessoas. Passa por ela quem saiu do Porto há quatro dias, quem começou em Esposende nessa manhã, quem prometeu chegar a Santiago de Compostela antes do fim do verão. Na freguesia onde trabalhamos com cavalos desde 2009, os peregrinos fazem parte da paisagem — tanto como o mar, os campos de milho e os moinhos de Montedor.
O Caminho Português da Costa é hoje um dos itinerários jacobeus que mais cresce. Parte do Porto, sobe o litoral por Vila do Conde, Póvoa de Varzim e Esposende, atravessa o rio Lima em Viana do Castelo, cruza o Minho de barco em Caminha e continua pela Galiza — Baiona, Vigo, Pontevedra — até à Praça do Obradoiro. São cerca de 270 quilómetros com o Atlântico quase sempre à esquerda.
E, no meio de tudo isto, defendemos sem grande imparcialidade que Viana do Castelo é a paragem mais bonita de todo o troço português. Este artigo é o nosso guia de vizinhos: a etapa, o que ver, onde dormir — e uma sugestão para o dia de descanso que envolve maré vazia, areia molhada e um cavalo.
A etapa por Viana: chegar pelo Neiva, partir pela Areosa
De Esposende a Viana do Castelo (cerca de 25 km)
A manhã começa entre pinhais e campos de cultivo, mas o momento que ninguém esquece chega cedo: em Castelo do Neiva, a pequena igreja de Santiago guarda uma inscrição do ano de 862 e é apontada como a mais antiga dedicada ao apóstolo fora da Galiza. Vale a pena parar um minuto — este caminho não foi inventado para o turismo; já era velho quando Portugal nasceu.
Seguem-se Chafé, Vila Nova de Anha e Darque, até que o rio Lima aparece em frente e, com ele, a travessia pela Ponte Eiffel, a estrutura metálica de 1878 que liga as duas margens. Entrar em Viana pela ponte, com o Santuário de Santa Luzia lá no alto a fazer de farol, é uma das chegadas mais fotografadas de todo o Caminho.
De Viana do Castelo a Caminha (cerca de 27 km)
A saída faz-se pelo centro histórico e apanha logo a Areosa, por caminhos agrícolas e trilhos à beira-mar. A partir daí, é um desfile:
- os moinhos de vento de Montedor e o farol mais setentrional de Portugal continental;
- as poças de maré e os campos murados de Carreço;
- o areal quase sempre deserto de Afife e o pinhal da Gelfa;
- Vila Praia de Âncora e Moledo, com a Serra d’Arga a fechar o horizonte a nascente;
- Caminha, onde o barco atravessa o estuário do Minho para A Guarda, já em Espanha.
Muitos peregrinos dizem que é a etapa mais bonita de todo o Caminho da Costa. Nós, que percorremos estes trilhos a cavalo há mais de quinze anos, só podemos concordar.
O que ver quando pousar a mochila
Viana merece mais do que uma dormida apressada entre duas etapas. Se puder, fique.
- Monte de Santa Luzia — suba pelo funicular mais longo do país (ou pelos degraus, se as pernas ainda deixarem). A vista sobre o estuário do Lima é das mais celebradas de Portugal, e atrás da basílica as ruínas da Citânia contam dois mil anos de história.
- Centro histórico — a Praça da República com o seu chafariz renascentista, a Igreja da Misericórdia, a Sé e as montras de ourivesaria onde brilha o coração de Viana.
- Navio Gil Eannes — o antigo navio-hospital da frota bacalhoeira, hoje atracado na doca; há até camas para viajantes a bordo.
- Praia do Cabedelo — na margem sul do Lima, um areal amplo onde o vento manda e os banhistas dividem o espaço com velas e pranchas.
- Romaria d’Agonia — se passar por cá em agosto, prepare-se: tapetes floridos nas ruas, mordomas cobertas de ouro, gigantones e três dias em que a cidade não dorme.
E à mesa? Peixe do dia, uma garrafa de vinho verde fresco e a certeza de que a etapa seguinte pode esperar.
Onde descansam os peregrinos
O albergue de peregrinos de Viana fica no centro, junto à Igreja do Carmo — chegue cedo na época alta, porque as camas voam. A cidade tem ainda pousada de juventude, alojamento local e hotéis para todos os feitios, muitos habituados a receber caminhantes com jantar cedo e partida ao nascer do sol.
Não se esqueça do carimbo na credencial: encontra-o no posto de turismo, em igrejas e em muitos cafés ao longo do percurso. Entre julho e setembro, reservar a dormida com antecedência poupa dissabores.
Cavalo e peregrinação: uma ligação de séculos
Durante a Idade Média, quem podia ia a Santiago montado — nobres, cavaleiros, bispos e mercadores —, e as estalagens do caminho tinham estrebaria como hoje têm wi-fi. Não é por acaso que o próprio apóstolo é tantas vezes representado a cavalo.
A tradição nunca desapareceu: ainda hoje o Gabinete de Acolhimento ao Peregrino, em Santiago, atribui a Compostela a quem percorra pelo menos 100 quilómetros montado, com requisitos próprios de registo das etapas — convém confirmar as regras atualizadas antes de planear a aventura. E o Alto Minho continua a ser terra de cavalos: na Serra d’Arga, os garranos, a raça autóctone da região, vivem em semiliberdade desde tempos imemoriais. Se um dia fizer o Caminho montado, saiba que temos alojamento de cavalos na Areosa, a dois passos do trilho.
A nossa dica: um dia de descanso… na sela
Depois de duas etapas seguidas de 25 quilómetros, os pés agradecem uma pausa — e Viana é o sítio certo para ela. A nossa sugestão de vizinhos: troque as botas pelos estribos.
O nosso passeio a cavalo na praia parte da Areosa, mesmo ao lado do Caminho, e leva-o pelos mesmos caminhos agrícolas até ao areal — mas sem peso às costas e a um ritmo que os cavalos conhecem melhor do que ninguém. Os grupos são pequenos (máximo de 8 cavaleiros), o acompanhamento é feito por instrutores certificados e a maioria dos nossos visitantes monta pela primeira vez connosco. Quem preferir fechar o dia em beleza tem ainda o passeio ao pôr do sol, com o Atlântico a arder no horizonte.
Os valores são sob consulta e a reserva faz-se numa simples mensagem de WhatsApp para o 934 142 212 — diga-nos que vem a caminho de Santiago, que nós tratamos do resto. Estamos na Rua da Condominha 216, na Areosa; todos os contactos estão no site. Bom caminho — e até já!
Perguntas frequentes
Onde devo começar o Caminho Português da Costa para receber a Compostela?
Para receber a Compostela é preciso percorrer a pé, no mínimo, os últimos 100 quilómetros até Santiago. Partindo de Viana do Castelo faltam cerca de 150, o que faz da cidade um ponto de partida muito popular para quem só tem uma semana: seis a sete etapas, mar quase sempre à vista e margem folgada para o certificado. As regras são definidas pelo Gabinete de Acolhimento ao Peregrino, por isso confirme os requisitos antes de partir.
Pode fazer-se o Caminho de Santiago a cavalo?
Sim — a tradição mantém-se viva e a Compostela continua a ser atribuída a quem percorre pelo menos 100 quilómetros montado. É, no entanto, uma logística exigente: alojamento para o animal em cada etapa, ferrador, transporte no regresso. Confirme sempre as condições atualizadas junto do Gabinete do Peregrino em Santiago e, se precisar de apoio na zona de Viana do Castelo, fale connosco.
Preciso de saber montar para o passeio na praia?
Não. A maioria dos nossos visitantes nunca tinha subido para um cavalo: fazemos uma breve introdução no picadeiro, escolhemos um cavalo calmo e adequado ao seu perfil e seguimos sempre com instrutor por perto e capacete na cabeça. Recebemos participantes a partir dos 8 anos e, na época balnear, adaptamos rotas e horários às regras de acesso às praias. Valores sob consulta; em caso de dúvidas de saúde ou mobilidade, o melhor é confirmar connosco antes de reservar.